Medo

E ele se esconde.
Tal qual encontra uma pilastra
para disfarçar sua grandeza.
Domados, cedemos
e nos fazemos títeres:
de quanto mais conhecemos
mais escravos somos!
Quisera aquela época
quando a sabedoria não me tocava
e era simples veículo
do intocável.
Nunca havia visto tal pilastra
e vivia sorrindo pelos cantos.
Olha cá como estou agora!
Tremendo bambo nas pernas,
sorrindo de meio-lado,
falando de sorte,
falando de morte...
E ele se esconde.
Mas a pilastra é fina demais
eu o vejo nas entreformas.
Tento me esconder também,
mas sou de carne e osso,
não adianta esconderijo.
Esqueço da pilastra
que já está impressa no inconsciente;
ando pra lá e pra cá,
impaciente.
O que está atrás dela é a incerteza
que me persegue,
mas prefiro não saber
porque algo me rege.
Algo forte e estranho...
olha eu cá acolhido!
Com estes olhos chorosos,
com estas lágrimas verdadeiras.
E ele se esconde.
Não porque teme,
simplesmente por ser oculto.
O que me atinje é que lá está ela
imóvel, intacta, impassível,
a pilastra que guarda o meu medo.