domingo, agosto 28, 2005

Medo


E ele se esconde.
Tal qual encontra uma pilastra
para disfarçar sua grandeza.
Domados, cedemos
e nos fazemos títeres:
de quanto mais conhecemos
mais escravos somos!
Quisera aquela época
quando a sabedoria não me tocava
e era simples veículo
do intocável.
Nunca havia visto tal pilastra
e vivia sorrindo pelos cantos.
Olha cá como estou agora!
Tremendo bambo nas pernas,
sorrindo de meio-lado,
falando de sorte,
falando de morte...

E ele se esconde.
Mas a pilastra é fina demais
eu o vejo nas entreformas.
Tento me esconder também,
mas sou de carne e osso,
não adianta esconderijo.
Esqueço da pilastra
que já está impressa no inconsciente;
ando pra lá e pra cá,
impaciente.
O que está atrás dela é a incerteza
que me persegue,
mas prefiro não saber
porque algo me rege.
Algo forte e estranho...
olha eu cá acolhido!
Com estes olhos chorosos,
com estas lágrimas verdadeiras.

E ele se esconde.
Não porque teme,
simplesmente por ser oculto.
O que me atinje é que lá está ela
imóvel, intacta, impassível,
a pilastra que guarda o meu medo.

sábado, agosto 27, 2005

[Re]Encontro

Tudo começou quando na horinha do almoço de sexta feira recebi um telefonema da Vanessa avisando que haveria reencontro do pessoal que havia estudado conosco nas turmas mais primárias. Aceitei. Sabia que no fundo muitos ali não eram de todo meus bons amigos, mas seria legal rever e saber um pouco das pessoas que não estão. O reencontro, dado qual foi, não desastroso, me fez re-conhecer uma Débora, um Vinícius, um Fernando...que há muito se haviam tornado rígidos no meu inconsciente crisálido.

Enquanto eles conversavam e riam alegres pela vida, eu me concentrava nos nímios detalhes: gestos, palavras, compromissos. Os mais interessantes eram aqueles que não lembrava: um oceano de mistérios a reconhecer. O problema é que era tanta gente que o tempo correu assustado. Eu, absorto na idéia do que isso representava, sem nenhuma nova pra contar, lia e relia as novas faces que ali se encontravam, e, de repente, nos percebi as crianças que nunca deixamos de ser; que ainda nos acompanhavam toda aquela vivacidade, pluralismo e ambigüidade. Ninguém tão sério. Ninguém adulto. Que expectativa terei pra daqui a uns dez anos? Retomei a parte rígida que havia esquecido.
O reencontro cessou. Brami gritos silenciosos que se espalharam pela vastidão do pensar: dor de cabeça. Gera stress esse tumulto. Saí de lá como reencontro, sem me sentir re-encontrado.

terça-feira, agosto 23, 2005

E se...

E se eu fosse um escritor famoso, como seria? Talvez aqui estivesse abarrotado de comentários de terceiros falando coisas, traçando paralelos...intelectuais.
E se minha empregada fosse a dona da casa? Se de fato ela tivesse sido criada por pessoas ricas e fosse vencida pelo status e o padrão, é tão difícil de imaginar a vida diferente...burgueses.
E se eu tivesse prestado o exame pra escola politécnica na França e passado? Estaria vivendo em outro país, com outras sacolas, outro idioma, mas ainda assim seria eu...burocracia.
Eu queria saber onde se guardam os futuros não realizados para ver o que havia de reservado para mim...fantasia.

sexta-feira, agosto 19, 2005

Coleção


Tenha sempre consigo
minhas palavras;
elas lhe servirão de abrigo
quando o silêncio chegar.
E se vier o frio,
esconda-se debaixo
de um poema:
nele haverá mais brandura
e calor
que qualquer cobertor...
e, se por ventura,
esquecer a porta aberta,
tranque-se
nos versos deste poeta
para lembrar de amor.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Fechado por tempo intermitente...

Caro[s] Leitor[es],

este blog permanecerá um tempo parado, pois seu autor está em construção.

sábado, agosto 13, 2005

Alguém tem que gritar

Porque existe a hora do manifesto. E alguém precisa lançar mão do primeiro grito. Agudo ou não: audível.

Silêncio. Fez-se dito.

Procuremos a causa, depois a explicação...

P.S.: Aviso aos navegantes que surpresas vêm chegando! Mas vamos com calma...

quinta-feira, agosto 11, 2005

Um pedaço de livro, para fins quaisquer...

Observem este fragmento do livro "O Retrato de D.o.r.i.a.n.G.r.a.y". Não concordo com ele, ou melhor, concordo com ele em partes, mas notem como é interessante:

"- Por demais injusto? Eu estabeleço uma grande diferença entre as pessoas. Meus amigos, escolho-os pela beleza, meus conhecidos, pelo caráter, e meus inimigos, pelo intelecto. Não podemos ser muito cuidadosos na escolha dos inimigos. Nenhum dos meus é idiota, são todos homens de certo poder intelectual..."
Lorde Henry

segunda-feira, agosto 08, 2005

O fim do post anterior

E está que no fim tudo ocorre bem. Por mais que não haja fim, haja apenas a espera. Formula de novo a questão. E cremos, por um momento, naquele pedido a Deus. Que tudo desse certo. Recorro a Deus quando tudo funciona e agradeço. É que daí penso que associamos apenas às felicidades algo de milagroso, de místico. E levo de novo meu prefixo "des". Mas desta vez com um certo recuo. Pode ser que não haja nada, mas prefiro acreditar; afinal, que seria da vida sem os milagres; que seriam dos milagres sem as crenças?

"A arte existe para que a verdade não nos destrua"
Nietzsche

O fim da fé intermitente...

Porque tenho medo. E nestas horas recorro a Deus; sinto-me culpado e trouxa. Por haver perdido a fé, por haver perdido a inocência de crer em algo ilógico. Por ter a fé lógica dos descrentes, dos homens prefixados pelos "des". A vida já é rude por si só. O fim é sempre assustador. Faz-se grito da minha janela aberta. Corro a ela, corro a ela...o que será? De mim que não creio...

domingo, agosto 07, 2005

Os impulsos opostos

O impulso do homem ante a uma realização se deve à força amor ou à força do ódio; sendo essas duas motrizes as grandes responsáveis por toda ação humana.

sábado, agosto 06, 2005

Dois Barcos

Quem bater primeira dobra do mar
Dá de lá bandeira qualquer
Aponta pra fé e rema

É, pode ser que a maré não virir
Pode ser do vento vir contra o cais
E se já não sinto teus sinais
Pode ser da vida acostumar

Será, Morena
Sobre estar só, eu sei

nos mares por onde andei
devagar dedicou-se,
mas o acaso a se esconder
E agora o amanhã, cadê?

Doce o mar, perdeu no meu cantar

Só eu sei
nos mares por onde andei
devagar dedicou-se, mas
o acaso a se esconder
E agora o amanhã, cadê?

Marcelo Camelo

Homenagem aos "hermanos" que alegram meus ouvidos.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Castigo


Hoje não há .

A beira dos edifícios,
o parapeito das janelas,
a porta do lado de fora adentrando,
a lágrima que se desprende,
a imensidão do céu chorando;
o reflexo na água,
a contenção de despesas,
o vão da plataforma,
o ato da natureza;
a esperança de que funcione,
a certeza do que é óbvio,
a intuição da hipótese,
a destruição do ópio;
parece até castigo de Deus...
essa desordem.

hoje não há .
a beira
o parapeito
a porta
a lágrima
a imensidão
o reflexo
a contenção
o vão
o ato
a esperança
a certeza
a intuição
a destruição
a ordem

porque hoje não há .

Deus.